E eu não derramei uma lágrima. Prefiro pensar que é por não querer perder qualquer detalhe que pudesse escapar por meus olhos entre uma lágrima e outra e não vou mentir, estou me sentindo absurdamente traído e decepcionado com o meu corpo, pois realmente pensava que este seria o ápice de meu emocional e que arrancaria várias lágrimas deste ser que quase nunca chora apenas pelo emocional, mas desconsiderando uma possível ilusão mental e reconfortando o meu ser, eu não comprei nada para comer ou beber por esta mesma causa. Restabelecendo o conceito de crítica e não apenas de diário de bordo de fã desesperado, devo dizer que o filme fora maravilhoso e que correspondera todas e quaisquer que fossem mais expectativas, mas, permita-me, voltarei para o meu diário de bordo de fã desesperado, que no final acabará por ser considerado uma crítica para todos os pacientes natos que lerem este depoimento crítico até o final.
No dia anterior ao dia 14 de julho de 2011, onde vos escrevo (ainda não dormi; ser 03h18min da manhã do dia 15 é leviano) passei mal. Dor de garganta maldita – que me lembrou os tempos de criança, onde sofri disso como sofro hoje com os ites alérgicos que não me abandonam – e então, percebi que este era o propósito dela, em minha mente fértil. Relembrar os tempos da infância para então, como se dessem tempo para que a mesma pronunciasse suas últimas palavras, decapitarem-na sem dó nem piedade, no dia seguinte, à meia noite em um cinema qualquer (que além do mais, está decadente em questões de organização, mas isso é outra história e fingiremos que não a contarei aqui).
Esta pequena dor de garganta com um acréscimo (como daqueles que se pedem na fila do McDonalds para a batata ficar maior) de dor no corpo e ameaça de febre que só não ameaçava mais minha ida ao cinema como minha sanidade corporal no cinema (céus, não bastava a saúde mental?) e, consequentemente, meu aproveitamento da última primeira vez. Dormi. Passou. A dor no corpo permanecera localizada, mas… nada desesperador.
Passamos da hora de dormir do dia 13 de Julho (já se passavam da meia-noite, mas, como disse acima, eu ainda não dormia, pelo contrário, via a entrevista do PC Siqueira no Programa do Jô) para a porta do cinema do dia 14 de Julho, um pouco mais das 23 horas, depois que já havia comido um Big Mac como quem nunca comera um grão de arroz há uns três milênios (não fora à toa a sacada do acréscimo no tamanho da batata; eu fiz). Se eu pudesse definir minha estada na fila do UCI do New York City Center, fodalhão, com 18 salas de cinema, um IMAX pronto para ser lançado, em cinco letras, estas seriam:
Mofei. Sim, senhor, eu mofei. Aproveito esta crítica que acredito que três ou menos pessoas irão ler, mas que está aliviando minha mente (como quem mija depois de mais de uma hora apertado) como nunca (sim, eu só mijei em casa), para criticar a falta de organização orgânica deste belo UCI no qual eu estava tendo um ataque cardíaco com a demora, às 23h50min, 11 minutos antes de começar o filme. Onze minutos antes de começar o filme e, somente depois, liberaram. Vocês sabem o quão frustrante é ficar em pé, com o fêmur gritando de dor (sim, eu sinto dor no fêmur) e ainda sem poder aproveitar aquele momento em que você senta sua bundinha na cadeira, acomoda-se, respira fundo, roda o filme da sua vida (ou das últimas 12 horas) em sua cabeça e então, você pensa: “Cheguei até aqui. Este é o meu lugar”. De repente, você não pensa isso, mas você sente isso. Voltando ao assunto, eu não consegui ter a sensação explêndida da bundinha que a sala do lado conseguiu. Aliás, liberaram todas as salas 3D com 30 minutos de antecedência. É porque pagaram mais caro. Eu já me privo de ver toda a magia na minha face por usar óculos e eles ainda têm mais direito de ter esquentar suas bundinhas na cadeira por mais tempo que eu? Senti-me no setor econômico de um avião. As pessoas deveriam estar mais antenadas com o preconceito contra os homodimensionais.
Tirando esta frustração, agarrei-me à sensação com todas as minhas forças, mas tive uma agradável ejaculação precoce. Agradável sem ironia nenhuma, porque melhor que a sensação que perdi, só vendo a última cena do filme passado, o logo da Warner Bros. e, finalmente, aquele Harry Potter tão esperado e, ao mesmo tempo, tão irreal, aparecer na tela imensa do cinema. Aposto que todas as pessoas da minha sala e que não tiveram suas bundinhas esquentadas devidamente concordarão comigo.
Como esperado, o filme já começa bombardeando: Gringotes. Sinceramente, eu não queria comentar cena por cena marcante nesta crítica, mas as pessoas que já viram o filme irão me entender se eu disser que necessito elogiar a atuação da nossa digníssima Helena Bonham Carter. Sou suspeito para falar dela, já que considero-me um completo babão por seu trabalho, mas não me resta dúvidas de que a atuação dela está entre as melhores do filme, não como Bellatrix em si (ainda sendo suspeito para falar por minha paixão pela personagem, uma de minhas únicas críticas sobre o filme é a falta de Bellatrix Lestrange, embora realmente não tivesse muito o que mostrar), mas como Hermione, transformada em Bella pela porção Polissuco. Como ela interpretava… As feições, o jeito, o medo… Eu realmente vi a Hermione por dentro da Bellatrix e garanto a vocês: não fui só eu.
E seguindo o curso dos filmes de acordo com os pontos que queria destacar, vem a cena da casa do Aberforth. E após Ariana Dumbledore se distanciar do quadro para chamar Neville Longbottom, perguntei-me mentalmente para não estragar as perguntas mentais das pessoas em volta: “Cadê a história do Dumbledore?”. O único vestígio de história captado em aquela cena é a hora em que Aberforth diz que seu irmão sacrificou várias coisas para obter o poder, inclusive Ariana, onde pensei que emendaria as lembranças do Aberforth e entraria a atuação do ator de Crepúsculo que fora escolhido para fazer o Grindelwald na adolescência. Mas… nada. O único ponto relevante e negativo do filme. Se era o filme mais curto, com apenas duas horas, por que não botar mais 20 ou 30 minutos com uma história tão interessante quando esta? Mas esta fora mais uma surra da Warner para aqueles que não leram a história e que vão ouvir para sempre que “o livro contém mais informações que os filmes” e nunca “a Warner foi incapaz de anexar mais informações à história” e uma decepção para aqueles que leram e esperavam ver esta história reproduzida aos seus olhos no cinema.
Hogwarts. Como destacar cenas nesta batalha tão completa, tão esplêndida, tão… inenarrável? Se você é alguém que ainda não viu o filme, mas que está aqui apenas por curiosidade, de mim, você não conseguirá nada que se equipare à sensação de ver a batalha de Hogwarts, de ver a Professora McGonagall enfrentando o Professor e agora Diretor Snape e chamando-o de covarde, ver todos os professores de Hogwarts unidos pelo bem maior e construindo barreiras e mais barreiras para retardar a entrada dos Comensais da Morte na casa de Harry Potter e de todos eles… De todos nós. Como ver a nossa casa sendo destruída é ruim. Não sei vocês, mas eu senti-me da mesma maneira que todos os estudantes presentes na Escola de Magia e Bruxaria. O mesmo medo, a mesma aflição, a mesma angústia… A mesma dor ao ver personagens que tanto gosto morrerem… E isto me levava de volta para a sala de cinema, com mais um sentimento: a revolta por não ter dado a devida atenção às mortes.
Algum conhecedor da cultura inglesa, diga-me: Eles menosprezam a morte do mesmo jeito que aparentam? Quem é que nunca ouviu rumores de que ingleses eram frios, atire a primeira pedra. Têm o direito de serem frios, mas falando sobre mortes, não. No primeiro filme, só deram atenção ao Dobby porque o final do filme deveria possuir algum trunfo. E Dobby foi este. Agora digam-me se a Edwirges, o Olho-Tonto, Remo Lupin, Ninfadora Tonks, Fred Weasley, até mesmo ele, Severo Snape, que se mostrou tão importante no filme (após sua morte, é claro) e outros que morreram nestes dois filmes não mereciam uma atenção especial no momento de suas mortes. Digam-me! Pensam o mesmo que eu, não? A sorte é que ainda temos a consolação de termos nos importado mais quando lemos e, os que não leram, que façam para si mesmos as mortes importantes.
E rufem os tambores. Câmara Secreta, Rony, Hermione, Basilisco, Tsunamis… Beijo! Confesso-lhes: Tão inesperado e tão rápido que eu pisquei, abri os olhos e eles já estavam um agarrado ao outro. E que beijão. Sucedido pelo beijo muxoxo no qual já estamos acostumados de Harry Potter e Gina Weasley, aquela que pede para o namorado fechar o zíper, mas que não sabe dar um beijo decente. Todos concordarão comigo: Foi bom ver a Câmara Secreta novamente, ainda mais em uma cena tão importante.
Admirou-me a capacidade do roteirista do último filme de, em meio a toda uma guerra, fazer o público rir. Momentos engraçados, além do “Not my daughter, you bitch!” que já prevíamos (e que eu fiquei muito feliz de ver; era uma das cenas em que eu depositava mais fé) e que aliviava um pouco a tensão na qual estávamos passando naquele momento tão marcante para todos ali presentes.
As lembranças de Snape. Um marco para o filme. Uma salva de palmas para a atuação de Alan Rickman, que, assim como Helena, deu um show e roubara a cena e as lágrimas de muitos fãs apaixonados e invejados por mim: aqueles que conseguem chorar em filmes. Snape abraçando Lilian Potter depois de morta, sua frase final, toda a cena fora emocionante. Arrisco-lhes dizer, uma das melhores do filme, em minha opinião. A lembrança que poderia ser descartada ou cortada, mas neste ponto, felizmente, a Warner Bros. não decepcionou-me. Emocionante. Fez-me ver Severo Snape de outro ponto de vista, como um herói, exatamente da mesma maneira que aconteceu quando li.
King’s Cross. Finalmente entendi por que a classificação de Harry Potter fora 14 anos. Aquele “pequeno Voldemort” sangrando no canto da estação de trem estremecera até mesmo a mim (não que isso seja difícil). A cena foi profunda e fiel, com a atuação excelente de Michael Gambon e nosso Daniel Radcliffe. Uma cena particular e com conteúdo espetacular de dois monstros hollywoodianos e uma prévia disto foi em Harry Potter e o Enigma do Príncipe, mesmo com os surtos psicóticos de Alvo Dumbledore.
E, novamente, King’s Cross, desta vez no Epílogo, depois da morte de Voldemort que, embora tivesse um pouco mais de expectativas para ela, não decepcionou nenhuma delas. Exatamente como eu li no livro, alguns anos atrás. Bom ver Draco e Scorpious. Bom ouvir a música com a qual se terminou o primeiro filme desta saga tão épica novamente, desta vez terminando o último. E ruim, perceber que é o fim. Mas um dia, teria de acabar. Nada é para sempre, nem mesmo eu ou você, que está lendo isso (se é que há alguém que depois de tantos parágrafos e delírios pessoais, ainda está lendo). Pode ser difícil aceitar em um primeiro momento, mas tudo passa. Só devemos nos orgulhar e guardar as lembranças do que passou. Não importa o que acontecer, nós estaremos protegendo a pedra, abrindo a Câmara, resgatando o prisioneiro, participando do Torneio Tribuxo e da Armada de Dumbledore, desvendando os enigmas do Príncipe Mestiço, destruindo horcruxes e virando os Senhores da Morte. Porque nós somos a geração Harry Potter.
De um quase crítico,
Lucas Lima
Nota: 10,0