
Entrego-te um botão de rosa roubado de uma roseira qualquer e tu imaginas que não sei escolher, mas não passa por tua cabeça que, entre as rosas maduras, preferi entregar-te o tímido botão que, mesmo não tão bonito quanto as outras, destacava-se apenas por ser diferente. Tu ris e aceitas o presente de bom grado, pois aprendeste que o valor do presente é a intenção, porém não ignoras. Ao chegar a sua casa, de onde posso espiá-la do pequeno basculante do banheiro, mergulha sua raiz em um vaso de plantas vazio, já que as últimas que recebeste murcharam há mais de um ano. Ligo-te e chamo-te para sair e tu aceitas, observando à rosa que já ameaça deixar de ser um mero botão e mostrar toda sua beleza para o mundo que não passa da sala de estar de tua casa. E saímos, rimos, divertimo-nos e beijamo-nos no portão de teu condomínio, apenas por uma vez. Tu entras em casa e eu volto a observar teu quarto pelo basculante, como deve ser. No dia seguinte, me ligas e me convidas para passar o dia em tua casa. O tempo é frio e não existe nada melhor do que estar com quem gostamos, debaixo do edredom, aproveitando o ócio do fim de semana, consumando o beijo que consumara uma relação e vendo televisão, mesmo sem prestar atenção. E a flor que lhe dei finalmente vira flor e tu vês que a ideia de lhe dar um botão de rosa não passa de um meio de estender seu prazo tão curto de vida. Passa-se um mês e o porteiro de teu prédio já virou meu conhecido; já deixa teu portão aberto às 19h30min, quando volto do trabalho e venho lhe visitar. Dou-lhe um beijo, pergunto o que tu fazes para manter a rosa viva e tu respondes que a ama como me amas. E entra no banheiro assim que ligo o chuveiro; não me viste o dia todo e agora, não desgrudas de mim nem na hora de meu banho; não tenho o que reclamar. E em seu armário, tenho cinco camisas e três calças jeans, fora algumas cuecas e samba-canções na máquina, meias e moletons. Em meu armário, há duas camisolas, três vestidos, dois shorts jeans e algumas camisas de bandas de rock, fora uma calcinha vermelha e outra preta, molhadas em meu banheiro. Durmo em sua casa e passamos a noite em claro desfrutando de leite condensado, sexo e insônia, mesmo sabendo que temos que trabalhar amanhã. E quando pisco, esqueço-me de nosso aniversário de oito meses, mas lembro no final do dia e tento fazer-lhe uma surpresa e você a aceita, mesmo com teu conhecido e imbatível bico, pois tu sabes que não sou bom com datas. Brigamos e acertamo-nos em um piscar de olhos e temos brigas mais extensas, mas nada que uma declaração simples de amor não lhe traga de volta, porque todos sabem eu não funciono sem você e você não vive sem mim. E quando nossa rosa murcha e suas pétalas caem, não encaro isto como a hora de ir, mas como a hora de renovar nosso amor e renovo-nos a cada dia, como o novo botão de rosa se abre aos poucos. Amo-te como se fosse a primeira vez. Ama-me como se fosse a primeira vez. E completamos um ao outro, sem cobranças e sem precisar de mais nada. Só amor e algumas brigas que nos fazem falta na conta do final do mês.
Lucas Lima

Preferia fechar os olhos e adormecer eternamente a fechá-los e acordar novamente em um lugar desconhecido. Nunca fiz questão de reforçar minhas crenças, mas se Shakespeare estava correto ao escrever que existe mais entre o céu e a Terra do que sonha nossa vã sabedoria, peço abertamente a tudo isto que me deixe repousar. Não me interessa um paraíso, tampouco um inferno ou qualquer rastro de vida após a morte, apenas o descanso que não perderia a graça após uma vida que valeria a pena.
Lucas Lima

— Muito para beber e pouco para comer. — recriminou-me enquanto andava pela casa como uma fiscal. — Bagunça demais, sujeira demais…
Acolhi o silêncio como um grande amigo, sem desconfiar de uma ruptura duvidosa, mas como uma válvula de escape para tanta reclamação.
Esbofeteou-me.
Não o silêncio, definitivamente rompido com o som de uma mão pesada em minha face. Alice.
— Andou fumando?
Antes sequer que meus olhos pudessem se fechar, senti o maço de cigarros fechado voar em meu rosto, assim como as mãos de uma donzela outrora.
— Você sabe o quanto isto faz mal à saúde? Sabe? — acompanhava Alice andar de um lado para o outro com os olhos e temia seus próximos movimentos — Não deve saber. Se soubesse, nunca teria tocado em um.
Interrompeu sua caminhada infinita e monótona pelo cômodo de vinte metros. Pôs as mãos na cabeça, como costumava fazer quando não sabia o que fazer ou o que falar, e eu pude realmente ver como o tempo a havia mudado. Alta, morena. Longos cabelos negros, os quais quase lhe cobriam as costas e que me levavam a prestar atenção em outro detalhe importante — tinha uma bunda maravilhosa. Bem destacada no curto vestido preto. E tomara que caia.
Não caiu, porém aproximou-se. De mim, não de cair. Infelizmente.
— Se eu te ver fumando novamente, eu acabo com você.
— O que está esperando?
— Fuma.
Agarrei o maço de cigarros antes jogado em mim antes de abandonar a poltrona verde-musgo apreciando o ar desafiante daquele lugar. Sorri maliciosamente e o abri, puxando um de seus cigarros e jogando-o novamente na poltrona velha, rejeitando os outros em um momento belamente oportuno. Os olhos de Alice encontravam-se fixos em meu rosto enquanto tateava a escrivaninha em busca da caixa de fósforos, que milagrosamente encontrava-se perto de minha mão. Levando o cigarro aos lábios, acendi o fósforo e levei-o até sua ponta. Queimou. E, sentindo o ápice do desafio, traguei-o.
Correu em minha direção e tinha a nítida impressão de que queimava como o cigarro entre meus dedos. Ocupou-me os olhos com os próprios e pude ver o fogo correndo em sua íris verde e incrivelmente hipnotizante. Levei o cigarro até os lábios novamente e traguei-o, exalando a fumaça em seu rosto como uma compreensível provocação.
E naquele segundo, eu poderia dizer que Alice estava em minhas mãos, como o cigarro. Não por muito tempo. O cigarro estava no chão; assim como Alice.
Lucas Lima (1-9-7-3)

Afrontava-a. Não a própria; a perene lembrança da mulher que esperava, contudo tinha consciência de que não voltaria. E por isto, afrontava-a. Vem, volta e diga que fica; que retornas e que não vais sairdes novamente pela porta da frente. Deixou o sumo sair dos olhos, a boca pedir por mais e temeu. Anestesiou o interno, virou ao lado e olhou: eram retinas.
Implorava com os olhos que gritavam por vê-la entrar pela porta da frente, justificando sua demora pela grande fila do mercado. E ele afrontava-a, como isto ela se fosse sentir e voltar enfurecida para recriminá-lo pelos atos mal criados, como costumava fazer quando o problema mais grave era o desleixo dele contra suas manias de limpeza.
Mas não sentiu. Não veio fúria, ficou branda. Rosa cálida, como quem precisa de água e cuidado. Olhou-o de cima a baixo e fitou a ausência. Onde estaria, então? Na fila, no quarteirão dobrando a esquina esquerda com sacolas nas mãos. Atrasado e atrasando palpitações. Não sentia, deixou escapar-se. Recolheu o pó e armazenou-o em um pote – seria útil; fútil.
Sorria ao olhar sua grande bagunça. Incomodava-o por costume, mas estava orgulhoso. Orgulhoso por sentir-se soberano; dono de seu próprio coração. Pouco a pouco, as mentiras que ele próprio criava serviam-lhe de consolo. E naquilo apoiava-se, submerso na própria loucura. Afogava-se.
– Diz-me! Diz-me que fica, que trouxe, que têm.
– Não fico, não trouxe, não tenho.
– Por que negas?
– Por que insiste?
– Porque preciso.
– Precisava.
– Não! Preciso, pois quero; pois te quero. E não me incomodo com bagunça, lembranças, amargo ou doce. Preciso, apenas. Não vais: fique e me leve.
– Já vou, amargurado, já vou.
Lucas Lima (1-9-7-3) e Françozo, J. (Ragazza Rossa)

Quando o silêncio nos invadia, tudo o que ela fazia era tomar-me o braço e contar a quantidade de janelas que a cidade tatuada em meu braço continha, mesmo sabendo de cor e salteado que eram vinte e seis. Observava e tentava, em vão, detectar qualquer detalhe sórdido que podia ter passado despercebido aos seus olhos outrora, quase como se o desenho gravado em minha pele fosse tão real quanto a realidade à nossa volta. E notava o quão aplicados eram teu olhos, como aqueles que lançava ao céu em noites de Lua cheia quando esta se destacava infinitamente em meio a tantas outras estrelas — eventos estes que eu fazia questão de levá-la, somente para observar a tua beleza incansável perante a luz do grande astro iluminado. Em próprios pensamentos, perguntava-me qual seria o motivo pelo qual a garota em meus braços fitava por horas o desenho, imóvel e preto-e-branco. E soube a resposta apenas em 2001, quase dois anos após meus braços autodenominarem-se vagos, como cabine de banheiro público. Esta é a lei da vida: o presente responde o passado e nos dá perguntas cuja resposta o futuro irá dizer, quando este virar presente e o presente, passado. Enquanto perguntava-me o que tanto ela buscava incansável em meu braço, inventava detalhes que a fizessem desconhecer-me, apenas para ter a oportunidade de explorar-me novamente, como fazia com a Lua no céu. E isso não perdia a graça para ela exatamente como observá-la não perdia para mim. Em um mesmo momento, esclareci a pergunta que me intrigou em um pretérito perfeito e, automaticamente, perguntei-me algo que estava certo de que me intrigaria pelo resto de minha vida, entre eufemismos e metáforas, num futuro do pretérito: a razão pela qual a deixei fechar a porta e não retornar.
Lucas Lima (1-9-7-3)